segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Filhos de quem mesmo?

Filhos do Bom Deus que nos criou? Mas nós (com acento mais do que agudo) criamos o bem? Nós fazemos o bem? Somos nós que calamos aquele que discorda de nós. O que fala diferente, o que pensa diferente, o que age diferente, o que ama diferente. Nós calamos. Nós violentamos. Nós matamos o diferente.  Nós matamos o igual. Nós nos matamos. O que resta? Quem dera fosse essa a solução. Se fôssemos eficientes teriamos dado cabo de nós mesmos. Mas nos arrastamos pela nossa incompetência, pela vergonha ou pela falta dela. Nos falta vergonha na cara. Temos vergonha? Temos cara? Nós mostramos a nossa cara? Somos filhos da hipocrisia, nos escondemos de nossa própria vergonha. Da nossa própria falta de cara. Onde estão estes pais que criam filhos que destroem outros filhos criados por outros pais? Por que estes pais se escondem? Por que estes pais escondem seus filhos? De qual vergonha se escondem? Se entreguem. Se mostrem. De qual covardia querem se esvair? Daquela de terem gerado e criado o seu próprio mal?

domingo, 24 de outubro de 2010

Somos todos filhos de Deus

Somos filhos de quem? De Deus? Mas qual Deus? O que criamos à nossa imagem e semelhança? Nossa imensa pretensão não cabe talvez em nossa diminuta percepção.  Não nos permitimos ver que nunca fomos criados, nem inventados e muito menos descobertos. Somos filhos, sim, do que era, do que nos antecedeu.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Nossa morte de cada noite

Quando dormimos morremos um pouco a cada noite. É de qualquer maneira um salto no escuro, olhos vedados, corpo caído no espaço. Um pouco perdido, um pouco em pedaços, escassos talvez. A hora em que juntamos os pormenores, nos tornamos pequenos, concentramos. Se tentamos olhar para trás, não dormimos. Só morrem os que cedem à queda. À noite a vista é turva, turvam-se os olhares, sobressaem as sombras. Nas entrelinhas vislumbra-se o insinuado, oferecendo-se numa não entrega. Sem sofreguidão. Sem vontades. No sono mergulha-se a seco. Doído, rasgado. Sabe-se, discretamente, que dele pode-se não voltar. Ficar no caminho. Tragado. Ou então, como milagre pouco provável, nos reafirmamos e nos confirmamos a cada manhã. Sinuosamente nos escorregamos da penumbra para o brilho mais tímido que fere nossos olhos. E acordamos. E nos esquecemos, displicentemente, de nossa singela agonia na noite anterior.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A (d) existência de Deus

Por quê acreditar em Deus? O que existe, se deve acreditar? Ou se deve saber? É necessário acreditar quando se pode saber? E como saber? Ele nos criou, acreditamos. Ele nos fez à sua imagem e semelhança, acreditamos. E Ele nos determinará, ou ao nosso fim. E devemos acreditar? Por quê nunca conseguimos simplesmente saber?
E fomos criados, inventados, do nada? Ou somos resultados de uma maior transformação? Da areia, da água, do sangue e da carne. Do que nos tornamos ou ao que pudermos ser. Lavoisier, químico francês, fundador da química moderna, já disse: "Na Natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma." O Budismo, há mais de 2500 anos, chegou à mesma conclusão. Como pensarmos em um criador se não existe de fato a criação? Nada foi criado e nada é definitivo. Somos rascunhos em andamento. Afirmamos, às vezes, que o universo é perfeito demais, o que justificaria um criador. Mas esta perfeição existe apenas em nossa mente. O universo é caótico e se equilibra justamente nesse mesmo caos. A vida acontece na turbulência, e o que é vivo fenece para poder alimentar a própria vida. Aquela visão do Homem como figura central da Criação e a Terra como o centro do universo, não resistiu a um olhar mais apurado, isento de falsas interpretações. Darwin, o mais importante naturalista,  nos colocou em nosso próprio lugar, humilde, mas verdadeiro. Soubemos que para chegarmos aonde estamos, nós rastejamos junto a outros animais. Nossos iguais. Com Copérnico, astrônomo e matemático, aprendemos que nem o sol e nem a lua borboleteiam em volta da Terra e que as estrelas não estão pintadas no firmamento para enfeitar nossas doces ilusões. Mas a nossa mais suave e ao mesmo tempo amarga ilusão ainda persiste. Até quando deus quiser?

terça-feira, 31 de agosto de 2010

A Forma é o Conteúdo

Existe forma sem conteúdo?
Existe conteúdo sem forma?
O que contém e o que está contido?
Um não existe sem o outro. A mesma coisa é o que parecem ser.
A forma tem em si o conteúdo, que por sua vez somente existe porque se manifesta em sua forma. Um visto do lado de dentro. O outro visto do lado de fora. 
Quem escreve, escreve em algum suporte. Pedra, madeira, papel. Em impulsos elétricos, sistemas binários, ambiente virtual. O som da palavra falada, vibrando em moléculas de ar. Pensamentos que circulam em neurônios, ondas cerebrais.
Sempre o conteúdo. Sempre a forma. 
Onde veríamos somente conteúdo? No abstrato? Podemos atingí-lo sem fazê-lo se manifestar? Pois quando ele se manifesta é porque ele se formou, moldou-se em sua forma.
E a forma, existe algo formado que não carregue em si um mínimo de significado?
E quando nada houver? Sem forma e sem significado. O que resta?

Escrever sem motivos

Existe motivo para escrever quando cessam os motivos?
Existe a escrita sem leitura?
Nos deparamos com a necessidade de expor. Expor o quê? Para quem?
São necessárias as opiniões? Ou delas, assim como de boas intenções, o inferno está cheio?
E onde está o leitor? Ele existe de fato? Ou somente existem os que contam histórias?
Existe aquele que ouve ou apenas gritamos?
Sem eco, sem retorno.
Exaustivamente.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Flanar e parar

Flanar é passear ociosamente, vadiar. Flanar é se perder. Andar sem rumo, sem intenções. Fugir do contorno, se espalhar, tangenciando os caminhos. Aberto aos ares, vazio. Sem esperar, sem encontrar. Despreocupadamente. Sem pressa, com rodeios. Fazendo e desfazendo os caminhos, descosturando. Desconstruindo.
Parar. Quando paramos? Existe uma paragem? O estático se revela no movimento. O caminho se insinua em sua própria imobilidade.
Flanemos então.
Sem medo. Sem esperança.