segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Nossa morte de cada noite
Quando dormimos morremos um pouco a cada noite. É de qualquer maneira um salto no escuro, olhos vedados, corpo caído no espaço. Um pouco perdido, um pouco em pedaços, escassos talvez. A hora em que juntamos os pormenores, nos tornamos pequenos, concentramos. Se tentamos olhar para trás, não dormimos. Só morrem os que cedem à queda. À noite a vista é turva, turvam-se os olhares, sobressaem as sombras. Nas entrelinhas vislumbra-se o insinuado, oferecendo-se numa não entrega. Sem sofreguidão. Sem vontades. No sono mergulha-se a seco. Doído, rasgado. Sabe-se, discretamente, que dele pode-se não voltar. Ficar no caminho. Tragado. Ou então, como milagre pouco provável, nos reafirmamos e nos confirmamos a cada manhã. Sinuosamente nos escorregamos da penumbra para o brilho mais tímido que fere nossos olhos. E acordamos. E nos esquecemos, displicentemente, de nossa singela agonia na noite anterior.
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
A (d) existência de Deus
Por quê acreditar em Deus? O que existe, se deve acreditar? Ou se deve saber? É necessário acreditar quando se pode saber? E como saber? Ele nos criou, acreditamos. Ele nos fez à sua imagem e semelhança, acreditamos. E Ele nos determinará, ou ao nosso fim. E devemos acreditar? Por quê nunca conseguimos simplesmente saber?
E fomos criados, inventados, do nada? Ou somos resultados de uma maior transformação? Da areia, da água, do sangue e da carne. Do que nos tornamos ou ao que pudermos ser. Lavoisier, químico francês, fundador da química moderna, já disse: "Na Natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma." O Budismo, há mais de 2500 anos, chegou à mesma conclusão. Como pensarmos em um criador se não existe de fato a criação? Nada foi criado e nada é definitivo. Somos rascunhos em andamento. Afirmamos, às vezes, que o universo é perfeito demais, o que justificaria um criador. Mas esta perfeição existe apenas em nossa mente. O universo é caótico e se equilibra justamente nesse mesmo caos. A vida acontece na turbulência, e o que é vivo fenece para poder alimentar a própria vida. Aquela visão do Homem como figura central da Criação e a Terra como o centro do universo, não resistiu a um olhar mais apurado, isento de falsas interpretações. Darwin, o mais importante naturalista, nos colocou em nosso próprio lugar, humilde, mas verdadeiro. Soubemos que para chegarmos aonde estamos, nós rastejamos junto a outros animais. Nossos iguais. Com Copérnico, astrônomo e matemático, aprendemos que nem o sol e nem a lua borboleteiam em volta da Terra e que as estrelas não estão pintadas no firmamento para enfeitar nossas doces ilusões. Mas a nossa mais suave e ao mesmo tempo amarga ilusão ainda persiste. Até quando deus quiser?
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