sábado, 23 de julho de 2011
Era de se esperar.
Amy Winehouse morreu. Era de se esperar, disseram muitos. A única coisa que se é de esperar é que todos nós vamos morrer. Mas foi Amy Winehouse quem morreu. Para delírio dos que contavam os dias para que ela morresse. Dos que previam sua morte anunciada. E se esquecem que já estão mortos. Podres por dentro. Decompondo-se em vida. Putrefatos. E agora sobrevivem em torno dos corpos dos que já morreram. Feito urubus em volta da carniça. Feito vermes disputando o primeiro naco de carne. Alimentam-se da podridão. Dela se nutrem. Pois agora a carne está servida: refestelem-se!
domingo, 1 de maio de 2011
Retomada
Retomar o que ainda não foi dito. Rasgar o peito congestionado. Fechado por coisas engolidas, sorvidas, tragadas. E o escarro acumulado, se tornando tecido, parte do que é. Enclausurando o ar, sem troca, trancafiado. A dor se torna valia de algo? A fina percepção da escassez do respirar. Em troca do quê? Da sutil experiência da fragilidade de simplesmente estar. Ou não mais estar. A vida se encaminha para fora, se expande. E quando trancamos o caminho? Invertemos o fluxo. Quando é hora de recolher? Talvez rever no viez das entrepausas, pequenos entre os momentos, quase ínfimos, quase íntimos. Tão menores que quase não os vemos. Somente se fecharmos os sentidos, talvez os sintamos. Fina percepção. Dolorida constatação. Do pesar do que se finaliza. Morrer talvez seja necessário. Morrer um pouco a cada instante. E renascer naquele mesmo momento em que se esvai. Caminhos inconstantes. O que se leva? O pouco que se consegue perceber? E depois esquecemos. E novamente por um breve lampejo recordamos. Nem sempre reconhecemos, nem sempre estamos turvos. Algo sempre resta. E sempre falta. Mas o nível do olhar é outro. Somos outro. Não mais do mesmo, mesmo sendo igual. Semelhante na diferença. E continuamos.
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