segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Nossa morte de cada noite

Quando dormimos morremos um pouco a cada noite. É de qualquer maneira um salto no escuro, olhos vedados, corpo caído no espaço. Um pouco perdido, um pouco em pedaços, escassos talvez. A hora em que juntamos os pormenores, nos tornamos pequenos, concentramos. Se tentamos olhar para trás, não dormimos. Só morrem os que cedem à queda. À noite a vista é turva, turvam-se os olhares, sobressaem as sombras. Nas entrelinhas vislumbra-se o insinuado, oferecendo-se numa não entrega. Sem sofreguidão. Sem vontades. No sono mergulha-se a seco. Doído, rasgado. Sabe-se, discretamente, que dele pode-se não voltar. Ficar no caminho. Tragado. Ou então, como milagre pouco provável, nos reafirmamos e nos confirmamos a cada manhã. Sinuosamente nos escorregamos da penumbra para o brilho mais tímido que fere nossos olhos. E acordamos. E nos esquecemos, displicentemente, de nossa singela agonia na noite anterior.

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